A doença ulcerosa péptica não é apenas um incômodo estomacal passageiro. É uma ferida real na parede do estômago ou do duodeno - uma lesão que vai além da camada superficial e atinge camadas mais profundas do revestimento. Cerca de 8 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com isso, e muitas não sabem que a causa pode ser tratada e até curada. Nos últimos 40 anos, a medicina revolucionou o entendimento dessa condição. Antes, acreditava-se que estresse e comida picante eram os principais vilões. Hoje, sabemos que a maior parte dos casos está ligada a duas coisas bem específicas: uma bactéria chamada Helicobacter pylori e o uso de medicamentos como ibuprofeno e aspirina.
As duas principais causas da úlcera péptica
Se você tem dor queimação na região do estômago, especialmente quando está com fome ou à noite, e a dor melhora depois de comer, isso pode ser um sinal de úlcera. Mas o que está por trás disso? A resposta é quase sempre uma das duas: infecção por H. pylori ou uso de anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como ibuprofeno, naproxeno e diclofenaco.
A bactéria H. pylori vive no estômago de mais da metade das pessoas com úlceras duodenais e em 30% a 50% das pessoas com úlceras gástricas. Ela não só sobrevive no ácido estomacal, como provoca inflamação, enfraquece a proteção natural da mucosa e aumenta a produção de ácido. Foi descoberta em 1982 por dois cientistas australianos, Barry Marshall e Robin Warren, que ganharam o Prêmio Nobel por isso. Antes disso, médicos achavam que o ácido era o único culpado - e tratavam só com remédios para reduzir o ácido. O resultado? A úlcera voltava em até 70% dos casos.
Já os AINEs são responsáveis por mais da metade das úlceras hoje em dia. Isso porque pessoas mais velhas, com artrite ou dor crônica, usam esses remédios por meses ou anos. Eles bloqueiam substâncias que protegem o estômago, deixando-o vulnerável. O risco aumenta ainda mais se você fuma, bebe álcool ou usa outros medicamentos como corticoides. Fumar duplica ou triplica o risco de úlcera. Beber mais de três doses de álcool por dia aumenta o risco em 300%.
Como é feito o diagnóstico?
Não basta sentir dor para saber que é úlcera. O diagnóstico preciso exige exames. O mais confiável é a endoscopia - um tubo fino com câmera que o médico passa pela boca até o estômago. Com ela, ele vê diretamente a ferida, pode coletar amostras de tecido e testar para H. pylori.
Se a endoscopia não for possível, existem testes não invasivos: o teste de antígeno nas fezes, o teste de urease no hálito e exames de sangue para anticorpos. Mas atenção: o teste de sangue só mostra se você já teve contato com a bactéria, não se ela está ativa agora. Por isso, o teste de hálito e o de fezes são os mais usados para confirmar infecção atual.
Se você tem sintomas graves - como vômito com sangue, fezes escuras como breu, perda de peso repentina ou dor intensa que não passa - precisa procurar ajuda imediatamente. Isso pode indicar sangramento, perfuração ou obstrução, complicações que exigem tratamento de emergência.
Antibióticos: o que se usa e como tomar
Quando a causa é H. pylori, o tratamento não é só um remédio para o ácido. É uma combinação de antibióticos. O padrão-ouro é o chamado tripla terapia: dois antibióticos mais um inibidor de bomba de prótons (PPI). O tratamento dura entre 7 e 14 dias, e a adesão é crucial. Se você pular uma dose, a bactéria pode se tornar resistente - e aí o tratamento falha.
Os antibióticos mais usados são: claritromicina, amoxicilina e metronidazol. Normalmente, você toma claritromicina + amoxicilina, ou claritromicina + metronidazol, junto com o PPI. O metronidazol pode causar gosto metálico na boca - algo que muitos pacientes relatam. Se isso for muito incômodo, o médico pode trocar por outro antibiótico.
Em regiões onde a resistência à claritromicina é alta (como nos EUA, onde passou de 15% para 35% nos últimos anos), os médicos já usam a quádrupla terapia: dois antibióticos + bismuto + PPI. Isso aumenta a taxa de cura de 75% para mais de 90%.
Após o tratamento, é preciso fazer um teste de controle, geralmente 4 semanas depois, para confirmar que a bactéria foi eliminada. Se ela ainda estiver lá, o médico ajusta o regime com outros antibióticos, como levofloxacina ou tetraciclina.
Medicamentos que reduzem o ácido: PPIs e bloqueadores H2
Enquanto os antibióticos matam a bactéria, os remédios que reduzem o ácido dão tempo para a úlcera cicatrizar. Os mais eficazes são os inibidores da bomba de prótons (PPIs). Eles funcionam bloqueando a última etapa da produção de ácido no estômago - e seu efeito dura de 24 a 72 horas por dose.
Os PPIs mais usados são: omeprazol (Prilosec), lansoprazol (Prevacid), esomeprazol (Nexium), pantoprazol (Protonix) e rabeprazol (AcipHex). Eles devem ser tomados 30 a 60 minutos antes das refeições principais - geralmente café da manhã e jantar. Se tomar depois da refeição, o efeito é bem menor.
Os bloqueadores H2, como famotidina (Pepcid), cimetidina (Tagamet) e nizatidina (Axid), também reduzem o ácido, mas são menos potentes. Eles duram só 10 a 12 horas, então precisam ser tomados mais vezes ao dia. Por isso, os PPIs substituíram os H2 na maioria dos casos.
Estudos mostram que, combinados com antibióticos, os PPIs aumentam a taxa de cura da úlcera de 70% para menos de 10%. Isso significa que, se você tomar o tratamento completo, é provável que a úlcera não volte.
Problemas com o uso prolongado de PPIs
Apesar de eficazes, os PPIs não são livres de riscos se usados por muito tempo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (FDA) alerta que o uso contínuo por mais de um ano pode aumentar o risco de fraturas ósseas, especialmente em idosos. Também há ligação com deficiência de vitamina B12 - porque o ácido é necessário para absorvê-la. Outro risco é a infecção por Clostridium difficile, uma bactéria que causa diarreia grave e pode surgir quando o equilíbrio intestinal é perturbado.
Alguns pacientes relatam “efeito rebote”: quando param de tomar o PPI, sentem mais queimação do que antes. Isso acontece porque o estômago aumenta a produção de ácido em resposta ao bloqueio prolongado. O ideal é reduzir a dose gradualmente, sob orientação médica, e não parar de repente.
Na prática, o tratamento de manutenção só é recomendado para quem não pode parar de usar AINEs ou tem histórico recorrente de úlceras. Para a maioria das pessoas, 4 a 8 semanas de PPI são suficientes para cicatrizar a úlcera - e depois, o remédio pode ser interrompido.
O que fazer se a úlcera for causada por AINEs?
Se você tem uma úlcera por causa de ibuprofeno ou aspirina, o primeiro passo é parar ou reduzir o uso desses medicamentos. Mas e se você precisa deles para a dor da artrite? Nesse caso, o médico pode trocar por um AINE mais seguro para o estômago, como o celecoxibe (um inibidor seletivo da COX-2). Ou então, prescrever um PPI de manutenção - mesmo sem infecção por H. pylori.
Outra opção é o misoprostol, um análogo de prostaglandina que protege a mucosa. Mas ele tem efeitos colaterais fortes: diarreia, cólicas e, em mulheres, pode causar contrações uterinas. Por isso, só é usado em casos específicos e geralmente não é a primeira escolha.
Se você precisa de dor alívio, o acetaminofeno (paracetamol, Tylenol) é a melhor alternativa. Ele não agride o estômago e não interfere na cicatrização da úlcera.
Mudanças de estilo de vida que fazem diferença
Remédios curam, mas o seu estilo de vida decide se a úlcera volta. Parar de fumar é o passo mais importante - fumantes têm 2 a 3 vezes mais chances de desenvolver úlceras e demoram muito mais para cicatrizar. Reduzir o álcool também é essencial. Mais de três doses por dia aumenta o risco em 300%.
Evite alimentos muito picantes, café forte e refrigerantes com gás se eles pioram seus sintomas. Mas não precisa eliminar tudo da dieta. A maioria das pessoas pode comer normalmente, desde que evite o que desencadeia a dor. O estresse não causa úlceras, mas pode piorar os sintomas. Dormir bem, se alimentar regularmente e não pular refeições ajudam o estômago a se recuperar.
O que vem a seguir: novidades no tratamento
Em janeiro de 2023, a FDA aprovou um novo medicamento chamado vonoprazan - um bloqueador competitivo de potássio, diferente dos PPIs tradicionais. Ele é mais potente, age mais rápido e tem taxas de cura da H. pylori de até 90%, contra 75-85% dos PPIs. Já é usado no Japão desde 2014 e agora está disponível nos EUA.
O futuro do tratamento é personalizado. Em 2022, apenas 15% dos pacientes tinham teste de resistência antibiótica antes do tratamento. Em 2025, essa cifra deve subir para 60%. Isso significa que, em breve, o médico vai saber exatamente quais antibióticos funcionam contra a bactéria que você tem - e não vai mais tentar por tentativa e erro.
Apesar da queda na prevalência da H. pylori em países desenvolvidos (de 60% em 1980 para 25% em 2020), as úlceras por AINEs estão aumentando. Com a população envelhecendo e mais pessoas precisando de analgésicos crônicos, a doença ulcerosa péptica continua sendo um problema de saúde pública - e não vai desaparecer tão cedo.
A úlcera péptica pode ser curada?
Sim, a maioria das úlceras pépticas pode ser curada, especialmente se a causa for a bactéria H. pylori. Com o tratamento correto - dois antibióticos e um inibidor de bomba de próton por 7 a 14 dias - a taxa de cura ultrapassa 90%. Mesmo as úlceras causadas por anti-inflamatórios cicatrizam bem com o uso de medicamentos que reduzem o ácido e a suspensão do medicamento causador.
Posso tomar ibuprofeno se tiver úlcera?
Não é recomendado. O ibuprofeno e outros anti-inflamatórios podem piorar a úlcera, causar sangramento ou impedir a cicatrização. Se você precisa de um analgésico, o acetaminofeno (paracetamol) é a alternativa mais segura. Se não for possível parar o ibuprofeno, seu médico pode prescrever um inibidor de bomba de próton para proteger o estômago ao mesmo tempo.
Quanto tempo leva para a úlcera cicatrizar?
As úlceras duodenais geralmente cicatrizam em 4 a 6 semanas com tratamento adequado. As úlceras gástricas podem levar até 8 semanas. O tempo depende da causa, da adesão ao tratamento e se você continua usando fatores de risco, como cigarro, álcool ou AINEs. Mesmo se os sintomas melhorarem em poucos dias, é essencial completar todo o curso de antibióticos e o tratamento com PPI.
PPIs causam dependência?
Não há dependência física como em drogas viciantes. Mas o corpo pode se adaptar à redução de ácido, e ao parar o PPI de repente, pode ocorrer um aumento temporário na produção de ácido - chamado de efeito rebote. Isso causa queimação e pode parecer que o remédio era essencial. A solução é reduzir a dose lentamente, com orientação médica, e não interromper bruscamente.
Existe um teste para saber se a bactéria voltou?
Sim. Após terminar o tratamento, o médico recomenda um teste de controle, geralmente 4 semanas depois. O mais comum é o teste de antígeno nas fezes ou o teste de urease no hálito. O teste de sangue não serve nesse caso, porque ele continua positivo mesmo após a bactéria ser eliminada. Se o teste de controle der positivo, significa que o tratamento falhou e será necessário um novo regime com antibióticos diferentes.
Próximos passos: o que fazer agora?
Se você tem sintomas de úlcera, não espere para ver se passa. Agende uma consulta com um gastroenterologista. Leve uma lista dos medicamentos que toma - inclusive os de venda livre - e anote quando a dor acontece, o que a melhora e o que piora.
Se já foi diagnosticado e está em tratamento, siga à risca o horário dos remédios. Tome os antibióticos no mesmo horário todos os dias. Não interrompa o tratamento só porque os sintomas melhoraram. E não volte aos AINEs sem conversar com seu médico.
Se você é fumante, comece a pensar em parar. Se bebe álcool regularmente, reduza. Essas mudanças, juntas com o tratamento médico, são a chave para uma cura duradoura. A doença ulcerosa péptica não é um destino - é um problema que a medicina moderna sabe resolver, desde que você participe ativamente do processo.
Henrique Barbosa
janeiro 8, 2026 AT 19:40Flávia Frossard
janeiro 9, 2026 AT 07:36Ruan Shop
janeiro 9, 2026 AT 09:14Thaysnara Maia
janeiro 10, 2026 AT 02:13Bruno Cardoso
janeiro 11, 2026 AT 10:43Emanoel Oliveira
janeiro 13, 2026 AT 03:03isabela cirineu
janeiro 13, 2026 AT 14:53